sábado, 5 de março de 2011
Balada Feroz
É CARNAVAL!!!!!
Eis minha homenagem ao carnaval de 2011, um poema de Vinicius de Moraes, "Balada feroz", que, creio eu, é mais um desatino moderno de uma forma poética romântica, do que uma "homenagem" ao carnaval, todavia, nesses tempos de folia, me lembrei dele...
Desde já, abraços carnavalescos!
Segue:
Rio de Janeiro
Canta uma esperança desatinada para que se enfureçam silenciosamente os cadáveres dos afogados
Canta para que grasne sarcasticamente o corvo que tens pousado sobre a tua omoplata atlética.
Canta como um louco enquanto os teus pés vão penetrando a massa sequiosa de lesmas
Canta! para esse formoso pássaro azul que ainda uma vez sujaria sobre o teu êxtase.
Arranca do mais fundo a tua pureza e lança-a sobre o corpo felpudo das aranhas
Ri dos touros selvagens, carregando nos chifres virgens nuas para o estupro nas montanhas
Pula sobre o leito cru dos sádicos, dos histéricos, dos masturbados e dança!
Dança para a lua que está escorrendo lentamente pelo ventre das menstruadas
Lança o teu poema inocente sobre o rio venéreo engolindo as cidades
Sobre os casebres onde os escorpiões se matam à visão dos amores miseráveis
Deita a tua alma sobre a podridão das latrinas e das fossas
Por onde passou a miséria da condição dos escravos e dos gênios.
Dança, ó desvairado! Dança pelos campos aos rinches dolorosos das éguas parindo
Mergulha a algidez deste lago onde os nenúfares apodrecem e onde a água floresce em miasmas
Fende o fundo viscoso e espreme com tuas fortes mãos a carne flácida das medusas
E com teu sorriso inexcedível surge como um deus amarelo da imunda pomada.
Amarra-te aos pés das garças e solta-as para que te levem
E quando a decomposição dos campos de guerra te ferir as narinas, lança-te sobre a cidade mortuária
Cava a terra por entre as tumefações e se encontrares um velho canhão soterrado, volta
E vem atirar sobre as borboletas cintilando cores que comem as fezes verdes das estradas.
Salta como um fauno puro ou como um sapo de ouro por entre os raios do sol frenético.
Faz rugir com o teu calão o eco dos vales e das montanhas
Mija sobre o lugar dos mendigos nas escadarias sórdidas dos templos
E escarra sobre todos os que se proclamarem miseráveis.
Canta! canta demais! Nada há como o amor para matar a vida
Amor que é bem o amor da inocência primeira!
Canta! - o coração da Donzela ficará queimando eternamente a cinza morta
Para o horror dos monges, dos cortesãos, das prostitutas e dos pederastas.
Transforma-te por um segundo num mosquito gigante e passeia de noite sobre as grandes cidades
Espalhando o terror por onde quer que pousem tuas antenas impalpáveis.
Suga aos cínicos o cinismo, aos covardes o medo, aos avaros o ouro
E para que apodreçam como porcos, injeta-os de pureza!
E com todo esse pus, faz um poema puro
E deixa-o ir, armado cavaleiro, pela vida
E ri e canta dos que pasmados o abrigarem
E dos que por medo dele te derem em troca a mulher e o pão.
Canta! canta, porque cantar é a missão do poeta
E dança, porque dançar é o destino da pureza
Faz para os cemitérios e para os lares o teu grande gesto obsceno
Carne morta ou carne viva - toma! Agora falo eu que sou um!
Vinicius de Moraes
Próximo Sarau A Tempo será em 13/03/2011
Convido-os para o próximo Sarau A Tempo que acontecerá no dia 13/03/2011, das 15 às 18h, na cidade de São caetano do Sul, SP. O espaço fica em cima do terminal de ônibus de São Caetano e existe uma rampa, ao lado da pista de skate, que dá acesso ao espaço.
O Sarau A Tempo acolhe pessoas das mais variadas idades e estilos poéticos, compareça e confira.
Participo deste sarau desde seu nascimento.
E, acreditem, vale muito a pena perder o jogo de futebol do domingo à tarde na televisão para consumir um pouco de boa poesia, boa música e muito boa companhia.
Abraços companheiros!
quinta-feira, 3 de março de 2011
A crítica teatral de Machado de Assis
Saudações!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
É com muito orgulho, expressado na grande quantidade de exclamações na saudação, que apresento agora minha primeira publicação. Este artigo foi o resultado, ou os restos intelectuais de minha monografia. (se não sabem ainda, licenciei-me em Letras em 2010).
Agradecimentos especiais para meu professor orientador Flavio Felicio Botton, e para minha família e colegas de classe. A paciência de todos foi fundamental no resultado de minha dedicação.
A revista Todas as Musas é publicada semestralmente, aonde os Editores Flavio Felício Botton e Fernanda Verdasca Botton organizam textos sobre as mais diferentes manifestações artísticas, apresentando-os a um seleto e experiente conselho editorial ;-)
Resumo do artigo:
“O presente trabalho propõe a análise da crítica teatral de Machado de Assis como relevante estudo na compreensão de qual seria o modelo de teatro para Machado de Assis no processo de construção de sua reputação intelectual, reconhecida ainda em sua juventude.”
Alguns trechos:
“Em 1854, o centro do Rio de Janeiro começa a ser iluminado a gás e a vida noturna engatinha ao desenvolvimento urbanista enquanto o segundo reinado, de D. Pedro II, seguia à frente na consolidação do Brasil como país independente (...)”
“Em 1856, aos dezessete anos, ele começa a tatear uma maneira de divulgar suas opiniões, e, no mesmo ano, assina seus três primeiros artigos críticos na Marmota Fluminense. O primeiro deles foi intitulado “Ideias Vagas”. (...)”
“A politização dos textos de Machado deixa aparente a empolgação do jovem poeta ao perceber a capacidade do teatro como a mais eficiente das artes na formação de uma sociedade. E essa capacitação só seria efetivamente praticada a partir do incentivo governamental.”
Abraços machadianos!
Revista Todas as Musas
Artigo: A crítica teatral de Machado de Assis
Lattes de Flavio Botton:
Aprender não é um bicho de sete cabeças
Sérgio Simka lança mais um livro pela Editora Ciência Moderna: Aprender não é um bicho de sete cabeças. Desta vez quem escreveu o livro foi Wilson Correia, filósofo e psicopedagogo, além de experiente educador.
Destaque para a sempre ótima escolha dos parceiros escritores.
Há algum tempo venho desconfiando da existência deste tal bicho de sete cabeças, pois, ou este bicho realmente não existe e o Prof. Simka treina o péssimo hábito de prorrogar a anunciação de um fato =( ou, através de sua grande experiência como educador, tem o dom de desvendar nossas dúvidas e saciar nossa curiosidade =)
E agora Simka, qual será a próxima desmistificação do bicho de sete cabeças?
Compre o Livro:
Conheça melhor o Prof. Sérgio Simka:
Abraços desmistificados!
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
A meu Pai depois de morto
Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Micro-organismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...
Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...
Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
Augusto dos Anjos
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Micro-organismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...
Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...
Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
Augusto dos Anjos
A meu Pai Morto
Madrugada de Treze de janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o"! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!
Augusto dos Anjos
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o"! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!
Augusto dos Anjos
A meu Pai doente
Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!
Que cousa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
- Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
Augusto dos Anjos
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!
Que cousa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
- Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
Augusto dos Anjos
Aqui, onde o talento verdadeiro
Aqui, onde o talento verdadeiro
Não nega o povo o merecido preito;
Aqui onde no público respeito
Se conquista o brasão mais lisonjeiro.
Aqui onde o gênio sobranceiro
E, de torpes calúnias, ao efeito,
Jesuína, dos zoilos a despeito,
És tu que ocupas o lugar primeiro!
Repara como o povo te festeja...
Vê como em teu favor se manifesta,
Mau grado a mão, que, oculta, te apedreja!
Fazes bem desprezar quem te molesta;
Ser indif'rente ao regougar da inveja,
"Das almas grandes a nobreza é esta."
Castro Alves
Não nega o povo o merecido preito;
Aqui onde no público respeito
Se conquista o brasão mais lisonjeiro.
Aqui onde o gênio sobranceiro
E, de torpes calúnias, ao efeito,
Jesuína, dos zoilos a despeito,
És tu que ocupas o lugar primeiro!
Repara como o povo te festeja...
Vê como em teu favor se manifesta,
Mau grado a mão, que, oculta, te apedreja!
Fazes bem desprezar quem te molesta;
Ser indif'rente ao regougar da inveja,
"Das almas grandes a nobreza é esta."
Castro Alves
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Amor é um fogo que arde sem se ver,
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões
Tanto de meu estado me acho incerto,
Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando,
num'hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar ü'hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
Luís de Camões
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando,
num'hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar ü'hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
Luís de Camões
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